Monday, September 04, 2006

Coisas extraordinárias














Coisas extraordinárias





“Há coisas extraordinárias” conclui um spot publicitário muito divulgado, agora, na nossa televisão.
De facto, seria extraordinário que uma carta, de cidadão para cidadão, dentro do nosso país, demorasse dois meses a chegar ao seu destino… Mas, mais extraordinário, ainda, é que o remetente seja o Ministro dos Negócios Estrangeiros e a destinatária deputada do Parlamento Europeu. Mas aconteceu. E não era uma carta qualquer com votos de boas férias ou de despedida devido à demissão do cargo que até então exercia.
A missiva do Prof. Freitas do Amaral tinha como fim responder a interpelações da deputada europeia, Ana Gomes, sobre a utilização de Portugal para voos secretos da CIA.
Sem revelar o seu conteúdo, a deputada afirma: “Os dados confirmam as minhas apreensões sobre a forma como Portugal estava a ser utilizado pela CIA”. Acrescenta, ainda, que o então Ministro dos Negócios Estrangeiros reconhecia que o controlo dos voos efectuados pelos serviços secretos norte-americanos estava a falhar.
É bom recordar que, há algum tempo, a opinião pública teve conhecimento da realização de transporte ilegal, por parte da CIA, de suspeitos de terrorismo, muitas vezes, encaminhados para países suspeitos da prática de torturas ou para a prisão de Guantanamo, à margem de todas as convenções internacionais em vigor.
A carta em apreço vem deitar mais uma acha para a fogueira depois da reportagem apresentada pelo Expresso na sua edição de 19 de Agosto último sobre a abusiva utilização da Base das Lages pelos EUA. Já aí se notava um significativo embaraço do Governo português para explicar uma série de casos ocorridos recentemente. Só que, pelos vistos, o passado esconde outras situações ocorridas com um governo de outras cores.
Tem, pois, cabimento concluir que uma carta que “demonstra que há colaboração do Governo português” com os voos ilegais da CIA demore tanto tempo a chegar a um destinatário incómodo…
Depois de, em Dezembro último, o Prof. Freitas do Amaral ter prometido um maior controlo sobre aqueles voos, pelo que nos apercebemos, talvez ele tenha deixado o cargo em boa hora, não se desse o caso de alguma das suas viagens acabar em tragédia…

Luís Moleiro Santos, aderente do BE

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